A curva do sonho
- Gabriel Gurgel
- 16 de fev. de 2022
- 3 min de leitura

RESENHA
Esse romance de Ursula K. Le Guin se passa em Portland, nos Estados Unidos, onde vive um homem chamado George Orr. Desde os 17 anos, Orr tem tido o que chama de “sonhos efetivos”: seus sonhos são capazes de alterar a realidade, de tal forma que Orr seja o único que se lembra de ter vivido em outra realidade. Temendo os possíveis efeitos desse poder, ele entra em desespero e começa a usar drogas para suprimir o sono e os sonhos, o que o faz ser encaminhado a uma terapia compulsória com um psiquiatra. O dr. Haber logo descobre que Orr está falando a verdade sobre os sonhos – e enxerga um potencial gigantesco no uso desse dom. Então tem início um jogo de poder entre paciente e psiquiatra, e a cada sessão Haber vai mais longe em suas manipulações da realidade através dos sonhos de Orr.
Até onde ele sabia, Haber era incapaz de agir com sinceridade porque mentia para si mesmo. Ele podia ter compartimentado a própria mente em duas metades herméticas: em uma delas, sabia que os sonhos de Orr alteravam a realidade e os empregava com esse objetivo; na outra, o que sabia era que estava usando hipnoterapia e ab-reação para tratar um paciente esquizoide que acreditava ter sonhos que alteravam a realidade.
Os capítulos alternam o ponto de vista de Orr com o do médico, o que possibilita ao leitor ter uma visão mais completa deste personagem e de suas intenções. Dr. Haber é um personagem ambíguo e assustador, um psiquiatra tão manipulador e inescapável quanto o Hannibal Lecter de Mads Mikkelsen, da série televisiva. Um homem que ostenta profissionalismo e cavalheirismo, de trato acolhedor e um tanto paternalista, ao mesmo tempo que é um maníaco sedento por poder.
Não é de admirar que Haber me use. Como ele poderia evitar? Não tenho força alguma, não tenho personalidade alguma, nasci para ser um instrumento. Não tenho destino algum. Tudo o que tenho são sonhos. E, agora, outras pessoas os comandam.
Já Orr é, como a própria trama menciona, o estereótipo do idiota da aldeia. Infinitamente passivo, ele tenta a todo custo se livrar dos conflitos à sua volta. Seus desejos imediatos são tão simples quanto escapar dos transtornos diários do transporte público até o trabalho; sua maior ambição talvez seja deixar de ser o protagonista dessa história. Ainda assim, Orr é cativante. Apesar de sua passividade e da aversão a conflitos, ele possui um forte senso de moralidade e de preservação da própria identidade, o que o transforma de idiota a herói e faz com que o leitor torça por ele.
Um terceiro ponto de vista que surge em alguns capítulos é o da personagem Heather Lelache, uma advogada a quem Orr pede ajuda. Curiosa e sagaz, Lelache se torna um elemento interessante da história – é através dela que a autora insere uma inesperada (mas nada usual) trama romântica, além de dar uma leve alfinetada em questões raciais.
Pensou: naquela vida, ontem, sonhei um sonho efetivo, que extinguiu 6 bilhões de vidas e alterou toda a história da humanidade pelo último quarto de século. Mas nesta vida, que criei na mesma hora, eu não sonhei um sonho efetivo. Eu estava no consultório de Haber, certo, e sonhei; mas não alterei nada. Tem sido assim desde o princípio, eu simplesmente tive um sonho aflitivo sobre a Era da Peste. Não há nada de errado comigo, não preciso de terapia.
A trama desse livro é tão imprevisível quanto um sonho, envolvendo elementos bastante absurdos. As reflexões sobre a realidade e sobre as perturbações que a alteram trazem um ar de Philip K. Dick. Parece que Le Guin aproveita os melhores elementos da obra desse autor e acrescenta sua escrita primorosa, com reflexões mais refinadas e personagens muito mais complexas. Assim como Dick faz em suas histórias, em A curva do sonho Le Guin fala sobre a harmonia do ser humano com o universo, traçando paralelos com religiosidade e filosofia. Isso, é claro, além da discussão central sobre poder, corrupção e submissão.
É impressionante como uma obra tão curta consegue contar uma história tão marcante, e ao mesmo tempo tocar em diversos assuntos recorrentes da ficção científica: conflitos internacionais, superpopulação, diferenças raciais, conflito entre ser humano e máquina. É um trabalho que só poderia ser assinado por um gênio como Ursula K. Le Guin.



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